Na China com Li Ling 跟李玲在中国

Continuo nachinacomliling.blogspot.com onde, durante um ano, registei impressões da minha vida em Macau... mais sensoriais que intelectuais, mais emotivas que realistas. A aventura recomeça "sem angústia e sem pressa" em Pequim, mais um ano. Aparece.

胡同 Hutong: velho sobrevivente, resistente, sorridente da Pequim de antigamente

Hutong é o nome dado aos bairros tradicionais chineses de ruas estreitas formados por 四合院 siheyuan, casas com pátio interno de estilo chinês onde viviam antigamente várias gerações da mesma família. A renovação radical e implacável que tomou conta da China na última década acabou praticamente com os hutongs, sobrando uns poucos na zona central da cidade, sempre ameaçados de morte pela necessidade de espaço e pelas características pouco práticas que fazem com que os próprios habitantes por vezes defendam a sua extinção e substituição por condições de vida mais modernas e, inevitavelmente, menos poéticas... suponho que a poesia não importe muito a quem tem de ir à rua para usar a casa-de-banho durante o Inverno rigoroso de Pequim. O governo preservou alguns (dos quais alguns sofrem agora mesmo prenúncio de demolição) para que os turistas provem o encanto da Pequim de antigamente, restringido pela modernidade menos encantadora do capitalismo a estes pequenos quadrados decaídos... Não faz mal; como boa turista que sou, aceito os símbolos que me dão a consumir, para mim ainda românticos neste fim de tarde a ver passar lentamente os sobreviventes de um bairro chinês, enquanto espero uma massagem chinesa. Que pena Pequim não ser sempre assim.

 

Fora de contexto

Passagens do poema longo, louco, alucinado de Álvaro de Campos:

 

 

      Passagem das Horas 

Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero. 
____

 

Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei...
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos...
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,
Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir
E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.


A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me,
Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,
Desta estrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,
Desta turbulência tranquila de sensações desencontradas,
Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,
Deste desassossego no fundo de todos os cálices,
Desta angústia no fundo de todos os prazeres,
Desta sociedade antecipada na asa de todas as chávenas,
Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias.


Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consanguinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contactos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cómoda e feliz. 

Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.

Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...
Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,
Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...
Que há de ser de mim? Que há de ser de mim? 
_____

 

Como um bálsamo que não consola senão pela ideia de que é um bálsamo,
A tarde de hoje e de todos os dias pouco a pouco, monótona, cai.

Acenderam as luzes, cai a noite, a vida substitui-se.
Seja de que maneira for, é preciso continuar a viver.
Arde-me a alma como se fosse uma mão, fisicamente.
Estou no caminho de todos e esbarram comigo.
Minha quinta na província,
Haver menos que um comboio, uma diligência e a decisão de partir entre mim e ti.
Assim fico, fico... Eu sou o que sempre quer partir,
E fica sempre, fica sempre, fica sempre,
Até à morte fica, mesmo que parta, fica, fica, fica...

Torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito.

Só humanitariamente é que se pode viver.
Só amando os homens, as acções, a banalidade dos trabalhos,
Só assim - ai de mim! -, só assim se pode viver.
Só assim, ó noite, e eu nunca poderei ser assim!

Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri.
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,

E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda gente,
Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,
E para mim foi sempre a excepção, o choque, a válvula, o espasmo.

Vem, ó noite, e apaga-me, vem e afoga-me em ti.
Ó carinhosa do Além, senhora do luto infinito,
Mágoa externa na Terra, choro silencioso do Mundo.
Mãe suave e antiga das emoções sem gesto,
Irmã mais velha, virgem e triste, das ideias sem nexo,
Noiva esperando sempre os nossos propósitos incompletos,
A direcção constantemente abandonada do nosso destino,
A nossa incerteza pagã sem alegria,
A nossa fraqueza cristã sem fé,
O nosso budismo inerte, sem amor pelas coisas nem êxtases,
A nossa febre, a nossa palidez, a nossa impaciência de fracos,
A nossa vida, o mãe, a nossa perdida vida...

Não sei sentir, não sei ser humano, conviver
De dentro da alma triste com os homens meus irmãos na terra.
Não sei ser útil mesmo sentindo, ser prático, ser quotidiano, nítido,
Ter um lugar na vida, ter um destino entre os homens,
Ter uma obra, uma força, uma vontade, uma horta,
Uma razão para descansar, uma necessidade de me distrair,
Uma cousa vinda directamente da natureza para mim. 
______

 

Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.

Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,
Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
Seja uma flor ou uma ideia abstracta,
Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.
E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo. 
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Todos os amantes beijaram-se na minh'alma,
Todos os vadios dormiram um momento em cima de mim,
Todos os desprezados encostaram-se um momento ao meu ombro,
Atravessaram a rua, ao meu braço, todos os velhos e os doentes,
E houve um segredo que me disseram todos os assassinos. 
______

 

Obter tudo por suficiência divina -
As vésperas, os consentimentos, os avisos,
As cousas belas da vida -
O talento, a virtude, a impunidade,
A tendência para acompanhar os outros a casa,
A situação de passageiro,
A conveniência em embarcar já para ter lugar,
E falta sempre uma coisa, um copo, uma brisa, uma frase,
E a vida dói quanto mais se goza e quanto mais se inventa.

Poder rir, rir, rir despejadamente,
Rir como um copo entornado,
Absolutamente doido só por sentir,
Absolutamente roto por me roçar contra as coisas,
Ferido na boca por morder coisas,
Com as unhas em sangue por me agarrar a coisas,
E depois dêem-me a cela que quiserem que eu me lembrarei da vida.

Sentir tudo de todas as maneiras,
Ter todas as opiniões,
Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,
Desagradar a si próprio pela plena liberalidade de espírito,
E amar as coisas como Deus. 
______

 

Viro todos os dias todas as esquinas de todas as ruas,
E sempre que estou pensando numa coisa, estou pensando noutra.
Não me subordino senão por atavismo,
E há sempre razões para emigrar para quem não está de cama.

Das serrasses de todos os cafés de todas as cidades
Acessíveis à imaginação
Reparo para a vida que passa, sigo-a sem me mexer,
Pertenço-lhe sem tirar um gesto da algibeira,
Nem tomar nota do que vi para depois fingir que o vi. 

_______

 

Álvaro de Campos

(Poema completo)

Ida ao mercado em 珠海 (Zhuhai), ali ao lado de Macau, numa manhã chuvosa e abafada daquelas de que eu tanto gostava...

Maio de 2010

Fora de contexto

 

Cansa Sentir Quando se Pensa    

 

Cansa sentir quando se pensa.
No ar da noite a madrugar
Há uma solidão imensa 
Que tem por corpo o frio do ar.

Neste momento insone e triste
Em que não sei quem hei de ser,
Pesa-me o informe real que existe
Na noite antes de amanhecer.

Tudo isto me parece tudo.
E é uma noite a ter  um fim
Um negro astral silêncio surdo
E não poder viver assim.

(Tudo isto me parece tudo.
Mas noite, frio, negror sem fim,
Mundo mudo, silêncio mudo -
Ah, nada é isto, nada é assim!)

 

Fernando Pessoa, in Cancioneiro

Cinema Chinês: 姨妈的后现代生活 Yi mā de hòuxiàn dài shēnghuó ("The Postmodern Life of My Aunt")

Fiz hoje o meu exame da cadeira de visualização de filmes chineses, 9 filmes depois... Já tinha mostrado 3 filmes do alinhamento;

vou passar a mostrar os restantes:

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1. The Postmodern Life of My Aunt 

姨妈的后现代生活 Yi mā de hòuxiàn dài shēnghuó

Realizadora: 许鞍华 Xǔ Ānhuá (Ann Hui) - 2006

 

 

Ye Rutang, a single-living woman in her sixties, struggles to maintain a dignified life amid the dangers of Shanghai. She is pragmatic, frugal and self-reliant. But her old-fashioned ways and trusting nature are an ill fit with the increasingly impersonalized world. After being the victim of several con artists, she moves back to live with her husband and daughter in Anshan (...). Ver o filme

Fado com verdadeira saudade

 Fotografias de Alba Troya

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No dia 9 de Junho assisti a um concerto especial: António Chaínho em Pequim, para um Diálogo entre Fado e Música Chinesa, na sala da Cidade Proibida. Já aqui disse muitas vezes como, com esta experiência de vida longe de casa, passei a compreender os sentimentos dos expatriados portugueses, porque agora também o sou. Mas esta foi possivelmente a primeira vez em que ouvi o fado realmente com saudade, aliás, a primeira vez em que verdadeiramente o senti - com toda a melancolia, aperto no peito, nó na garganta e lágrima no canto do olho. Ouvindo, ao mesmo tempo à flor da pele e num sítio profundo de mim, cada palavra como uma pura expressão do que me vai na alma. Sempre soube que ainda me faltava algo para apreciar o fado em toda a sua essência; desconfiava do sofrimento da voz, do choro da guitarra, como se fossem parte de um fingimento tão completo que "chega a fingir que é dor a dor que deveras sente"...

Descobri que me faltava ser emigrante. E que a alma do fado não tem que existir na voz de quem o sofre nem nos dedos de quem o chora, mas no coração de quem o ouve, deveras sentindo.

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E como juntar a voz de Isabel Noronha e a de Gong Lin Na? E como fazer com que faça sentido? Como unir o som das guitarras de Tiago Oliveira e Chaínho com o sheng chinês? Com um concerto único, feito para gente capaz de se sentir parte de duas culturas percebendo que não pertence a lugar nenhum... mas que vai absorvendo bocados das coisas, das pessoas, dos sítios por onde passa, engolindo-os osmoticamente para que façam parte da identidade em imparável (des)construção. As vozes, em português e chinês ao mesmo tempo, confundiram-se mesmo como se fossem una, numa única língua; as guitarras e o sheng também conseguiram encontrar-se na pluralidade da geografia e do som. Um momento bonito!

António Chaínho

Gong Lin Na

Contrabando

 

Lê a nova edição da revista aqui. Visita-me na página 16.

西安 Xi'an 3

Última parte da viagem a Xi'an... no parque em frente do Pagode do Grande Ganso, um Domingo animado e quente, com as famílias inteiras na rua. O dia mais agradável da estadia em Xi'an.

Macau revisitada

Foi tão bom voltar a Macau! Senti-me como num regresso a casa, quando até as coisas de que não gostamos nos recordam os bons momentos que ali passámos e as experiências que fazem parte de quem somos, de quem nos tornámos. Por isso ao chegar, quando cheirei e quase apalpei o bafo insuportável da humidade de Macau que tanto desconforto me causou ao longo do ano que aí vivi... sorri e senti que bom que era estar de volta. Eis Macau revisitada.

A Rua dos Mercadores, por onde passava diariamente para chegar à minha Rua dos Ervanários, tem agora um pequeno e surpreendente parque cheio de graffiti onde, aparentemente fora de sítio, se reúnem as velhotas do bairro a dar à língua. Percorri os velhos caminhos na companhia da minha querida amiga Han Lili.

Não há tempo nem surpresas no Jardim de Camões. Quase parece que os jogadores ociosos são os mesmos de há um ano, os senhores que se exercitam no ginásio do jardim ainda estão em forma como antes, as cartas que se lançam ainda ditam as mesmas sortes. O relógio aqui é benévolo e a longevidade certa... pelo menos enquanto dure o mahjong, ou o jornal, ou a conversa com o vizinho.

Mesmo ao lado do Jardim de Camões está o Cemitério Protestante de Macau, onde figuras importantes encontraram a última morada. A mais destacada é Robert Morrison, primeiro missionário protestante na China que dedicou 12 anos da sua vida à primeira tradução da Bíblia para chinês, sendo também responsável por vários dicionários e gramáticas da língua chinesa.

Fado e música chinesa em diálogo

No mês de Camões, temos António Chaínho em Pequim!

Estou curiosa para saber como dialogam as músicas de cá e de lá, como se unem as vozes das duas culturas com as quais vivo os meus dias, a minha e a que me acolheu... Na descrição do espectáculo escrita em chinês, a agenda cultural chama Chaínho de "tesouro nacional" e fala do fado como a música do amor-saudade, que faz sentir uma tristeza doce e vem da profundidade da alma. Fala dos marinheiros errantes que viajavam por mar para chegar à China, cantando profunda melancolia. Diz que as pessoas em todo o mundo têm os mesmos sentimentos de saudade triste, dolorosa, doce, bonita e feliz... Fala de emoções comuns nas melodias delicadas. Fala do longo intercâmbio de Portugal e China e da música que agora lhes serve de linguagem comum. Vamos ver!

        

 

Na Sala de Espectáculos da Cidade Proibida, Pequim, 9 de Junho de 2010

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